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Quando a sucessão não começa pela conversa, transição se torna ruptura

  • Foto do escritor: Marcos Thiele
    Marcos Thiele
  • 15 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de ago. de 2025



A sucessão em empresas familiares costuma ser tratada como um momento pontual: a passagem formal do comando de uma geração para outra. No entanto, essa visão simplista é um dos fatores que transformam histórias de sucesso em uma coleção de crises . A falta de preparação, de conversas estruturadas e de alinhamento simbólico abre espaço para conflitos silenciosos, decisões precipitadas e rupturas que comprometem o futuro.

Mais do que uma formalidade administrativa, a sucessão é um processo que começa muito antes da entrega das chaves da sala de direção. Ela envolve relações de poder, dinâmicas emocionais, preservação do legado e abertura para a inovação. Quando conduzida sem diálogo, tende a gerar descontinuidade e, muitas vezes, encerrar ciclos de forma abrupta.


Sucessão é uma estrada, não uma encruzilhada

Empresas familiares com longevidade reconhecem que a sucessão começa anos antes da transição formal. É um percurso que envolve preparar o sucessor, reposicionar o sucedido e criar condições para que ambos convivam produtivamente durante a transição. Essa jornada permite transferir não apenas funções, mas também valores, práticas e a história da organização.

Ao tratar a sucessão como processo, a empresa reduz o risco de decisões reativas, como a escolha de um sucessor por conveniência ou proximidade afetiva, em vez de por competência e preparo. Esse cuidado é determinante para não integrar estatísticas que mostram que boa parte das empresas familiares não sobrevive à segunda ou terceira geração — destino que frequentemente se traduz em necessidade de uma venda parcial forçada ou mesmo crises que podem gerar situações de difícil reversão.


Governança e protocolo familiar como escudo

O diálogo aberto é importante, mas não substitui a estrutura formal que a governança proporciona. Um arcabouço coerente que inclua, do lado da família, protocolo e conselho de família, e do lado do negócio, conselho consultivo ou de administração, com rituais maduros, será uma camada de proteção e direcionamento importante,  ajudando a separar laços emocionais de decisões estratégicas.

Sem esses mecanismos, a sucessão fica vulnerável a disputas internas, falta de critérios objetivos e conflitos que paralisam a empresa. Uma governança mais madura garante que a escolha do sucessor seja fruto de um processo planejado e transparente, diminuindo tensões e fortalecendo a legitimidade de quem assume.


Escuta intergeracional e transferência de conhecimento simbólico

A sucessão bem-sucedida não depende apenas de transmitir informações operacionais. Ela exige que o sucessor compreenda o “DNA simbólico” da organização: o conjunto de valores, narrativas e rituais que formam sua identidade.

Esse patrimônio imaterial é muitas vezes invisível, mas decisivo. Sem a escuta intergeracional — que envolve ouvir histórias, compreender decisões passadas e respeitar contextos —, o sucessor tende a conduzir mudanças que rompem com a cultura de forma abrupta, afastando colaboradores e clientes.

Ao mesmo tempo, essa escuta não significa cristalizar a empresa no passado. Trata-se de absorver a essência para ter base sólida ao inovar. 


Inovação como janela estratégica

A sucessão é também uma oportunidade de oxigenação. O sucessor, preparado e legitimado, pode introduzir novas estratégias, produtos e formas de gestão que atualizam a empresa diante das transformações do mercado.

No entanto, inovação sem conexão com a cultura pode gerar rupturas nocivas, enquanto apego excessivo ao passado inibe a adaptação. O equilíbrio é alcançado quando a nova geração entende que preservar o legado não significa manter tudo igual, e que inovar não é romper indiscriminadamente.

A inovação enraizada na visão de mundo e valores da família é uma das alavancas competitivas mais potentes de uma empresa de controle familiar.


Conflitos simbólicos, emocionais e identitários

Os maiores desafios da sucessão raramente são técnicos. Conflitos não ditos, rivalidade entre irmãos, ressentimentos antigos e disputas por reconhecimento minam a coesão familiar e, por consequência, a saúde do negócio.

Esses conflitos são ainda mais perigosos quando permanecem invisíveis — sem espaço legítimo para serem discutidos. Em muitos casos, as divergências simbólicas se manifestam apenas em decisões contrárias ao interesse da empresa, bloqueio de investimentos ou sabotagens veladas.

Ignorá-los pode criar um terreno fértil para rupturas definitivas, tornando a empresa vulnerável a perda de competitividade, potenciais crises de confiança que podem levar a problemas financeiros.


Escuta ativa, perdão e biografia compartilhada

A transição de liderança exige um exercício de escuta ativa entre as gerações. Essa escuta vai além de ouvir palavras: envolve reconhecer perspectivas, validar experiências e criar um terreno comum.

O perdão, nesse contexto, não é uma concessão pessoal, mas uma ferramenta estratégica para limpar o caminho das decisões. A construção de uma biografia compartilhada — na qual fundador e sucessor se reconhecem como parte de uma mesma história — fortalece o sentido de continuidade e pertencimento.

Quando essas práticas estão ausentes, a sucessão se torna uma negociação fria, marcada por distanciamento e desconfiança, abrindo portas para a instabilidade.


Preparar sucessores sem sufocar o fundador

Um erro recorrente é tentar acelerar a saída do fundador ou, no extremo oposto, prolongar sua permanência até inviabilizar a autonomia do sucessor. O processo ideal cria um espaço de transição onde o fundador atua como mentor, não como obstáculo.

Esse arranjo preserva a identidade da empresa e, ao mesmo tempo, permite que o sucessor construa seu estilo de liderança. É uma forma de honrar a trajetória sem sufocar a inovação, equilibrando continuidade e renovação.


Empresas falidas como consequência da ausência de conversa

Quando a sucessão acontece de forma improvisada, sem estrutura e sem diálogo, os efeitos são rápidos e profundos: perda de talentos, queda de faturamento, fragmentação societária e instabilidade no mercado.

No Brasil, muitos casos de empresas falidas têm sua origem na má condução do processo sucessório, e não apenas em erros estratégicos ou crises econômicas. A ausência de conversas francas sobre expectativas, valores e futuro cria uma espécie de “zona cega” que impede decisões assertivas.

O resultado é a ruptura: não apenas a falência formal, mas a destruição de relações e a perda do sentido de continuidade que caracteriza uma empresa familiar saudável.


Conclusão

A sucessão em empresas familiares não começa com a assinatura de um contrato ou a cerimônia de posse. Ela começa muito antes, na disposição de conversar sobre o que é inegociável, sobre o que precisa mudar e sobre como preservar a essência enquanto se constrói o futuro.

O diálogo, estruturado e mediado por ferramentas de governança, é a ponte que liga legado e inovação. A escuta ativa e a transferência de conhecimento simbólico transformam a sucessão de um momento de risco em um ato de fortalecimento.

Quando essa conversa não acontece, a sucessão deixa de ser transição e se torna ruptura.

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