Jogos infinitos, a copa do mundo e a estratégia vencedora.
- Marcos Thiele
- 10 de jan. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2025

A copa do mundo é um torneio em que experimentamos o melhor do futebol, porém o que mais esperamos é determinar um vencedor. A copa tem data para acabar, e neste dia glorificamos uma só equipe. Porém a vida, e o futebol, continuam mesmo após a final da copa: o futebol, como esporte, nunca termina. Permanece evoluindo porque um número enorme de pessoas e times o praticam. Neste sentido o futebol é infinito, e a copa finita. Esta ilustração nos ajuda a entender que existem dois tipos de jogos nas nossas vidas, em nossas organizações, em nossa sociedade: os jogos finitos - são aqueles em que o propósito é vencer - e os jogos infinitos - aqueles em que o propósito é permanecer jogando.
Este conceito foi postulado por James Carse em um pequeno tratado: "Finite and infinite games: a vision of life as play and possibility" (Free Press, 1986). Jogos finitos tem uma duração específica, com ganhadores e perdedores claros, e regras de determinadas previamente que não mudam ao longo do jogo. Já os jogos infinitos tem como propósito que o próprio jogo continue acontecendo, e as regras devem mudar quando se observa que a continuidade do jogo está em perigo. Como este conceito pode nos apoiar na construção de organizações, equipes e pessoas “vencedoras”? Naturalmente a questão fundamental será compreender - ou determinar - o significado de vencer.
Será que nossa carreira se aproxima mais de um jogo finito ou infinito? Alguns segundos de reflexão certamente nos trazem à mente a imagem de uma jornada que nos acompanha em boa parte da nossa vida, se assemelhando muito a um jogo eterno enquanto permanecemos jogando. Embora o foco de curto prazo pareça ser o próximo salto, a próxima vitória, talvez a visão mais essencial esteja expressa nas perguntas que ocorrerão em algum momento desta jornada quase infinita: valeu a pena? o que de fato construí? o que de fato importou?
Será que podemos, na vida real das organizações, montar uma equipe “vencedora” como se estivéssemos em um torneio? A mentalidade que prevalece nas empresas é a da competição, da vitória (a cada meta, a cada trimestre). Porém usualmente observamos que equipes aparentemente vitoriosas nas metas passadas destruíram boa parte de seu capital relacional e escondem grandes fragilidades que certamente não conduzirão à próxima grande meta. Enxergamos as árvores (resultado batido) e não compreendemos que estamos colocando em risco a floresta (continuidade da própria equipe).
E as organizações? Nas empresas e organizações 99% do que se convenciona chamar estratégia não passa de um pacote de ideias de soluções finitas (iniciativas e planos de ação para crescimentos de margens e resultados, etc.), para um problema essencialmente de natureza infinita (valor percebido e compartilhado que possibilita perenização em dado ecossistema). Quando lutamos desenfreadamente com foco único em obter vitórias finitas (metas objetivas de curto prazo) recebemos como contrapartida a deterioração da relevância e impacto da organização em um prazo mais longo.
O ponto crucial a ser compreendido e aplicado é que nossa abordagem habitual precisa ser invertida. É fundamental estabelecer com clareza a natureza do desafio infinito que realmente importa, para que este seja um orientador e delineador dos objetivos finitos. Nós temos cada vez mais investido nossas energias em buscar resolver problemas finitos, por acreditar que são a única realidade que importa, sem nos dar conta de que estamos deixando escapar as questões fundamentais em nossas carreiras, negócios, e em nossa vida. E assim estamos testemunhando a perda cada vez mais acelerada dos nosso jogos infinitos. Conforme explica Carse: a alegria do jogo infinito está em aprender a iniciar algo que sabemos não poderemos terminar. Nós, nossas equipes, empresas e sociedade, precisamos todos aprender a jogar o jogo infinito.
Marcos Thiele
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