Desenvolver para crescer: o desafio da mudança de escala nas empresas médias
- Marcos Thiele
- 1 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025

Há um momento no crescimento de uma empresa em que tudo parece simultaneamente avançar e se desorganizar. O ritmo acelera, as demandas se multiplicam, a complexidade dobra de tamanho — e a sensação interna é de que a companhia deixou de se encaixar dentro de si mesma. Esse momento não é um desvio. É o próprio processo de desenvolvimento organizacional se impondo.
Crescer é natural para uma empresa saudável, mas tem seus custos. Toda expansão amplia a superfície de contato entre áreas, pessoas, decisões e expectativas. É por isso que, a cada degrau de crescimento, surgem dois ou três degraus adicionais de complexidade. A empresa ganha volume; a gestão ganha peso.
O equívoco mais comum é interpretar essa sobrecarga como falha de execução. Não é. É apenas a empresa entrando em um estágio em que improviso já não sustenta mais o avanço.
É nesse ponto que o desenvolvimento organizacional deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma lente para interpretar o que está acontecendo.
Desenvolvimento organizacional como movimento de coerência
O desenvolvimento organizacional não é uma metodologia, nem uma caixa de ferramentas. Ele descreve um movimento interno de coerência: a empresa começa a alinhar o que deseja ser com a forma como está organizada para operar.
E esse movimento não acontece de forma linear. Ele depende do contexto, da identidade da organização, do tipo de valor que ela quer gerar e da fase em que se encontra. Empresas menores precisam de simplicidade e proximidade; empresas maiores precisam de coordenação e clareza. Confundir essas necessidades gera ruídos profundos.
O amadurecimento organizacional ocorre quando três elementos se encontram:
Identidade, que define quem a empresa é.
Estratégia, que define para onde ela quer ir.
Estrutura organizacional, que define como ela se move.
A tensão surge quando um elemento avança e os outros não acompanham. É aí que começam as crises internas de crescimento — não como rupturas trágicas, mas como sinais de que o organismo empresarial está pedindo outro tipo de organização.
As fases de desenvolvimento transições
No estágio inicial, o fundador é quase uma extensão natural da operação. A velocidade nasce da concentração de decisões, e a identidade se confunde com a própria personalidade de quem iniciou o negócio. A empresa funciona como um corpo único, sem precisar nomear funções ou criar procedimentos formais.
Com o crescimento, esse corpo se expande, ganha mais braços, mais vozes, mais demandas. O que antes era natural deixa de ser óbvio. As decisões não circulam mais com a mesma fluidez. Os ruídos começam a aparecer. E a qualidade passa a oscilar.
É nesse momento que muitos acreditam que precisam, subitamente, se tornar “profissionais”, criando rituais complexos, camadas de governança exageradas e padrões que só fazem sentido em empresas muito maiores.
Mas o processo saudável de desenvolvimento organizacional pede o oposto: menos ambição estrutural e mais consciência sobre o próprio estágio. A transição entre crescimento inicial e consolidação exige escolhas pequenas e bem-feitas. Requer clareza mínima, não sofisticação máxima.
Toda empresa passa por uma sequência natural de transições: da energia à coordenação, da coordenação ao controle mínimo, e do controle mínimo à capacidade de integrar áreas sem perder a identidade. Cada transição exige um tipo diferente de musculatura.
O risco é tentar pular etapas, adotando práticas que não conversam com o tempo presente da organização. Isso gera desalinhamento, rigidez e um tipo de carga operacional que, na prática, não cabe no espaço disponível.
Identidade e cultura como eixos da maturidade real
Em empresas que crescem rápido, identidade e cultura deixam de ser pano de fundo e se tornam critérios de decisão. Sem clareza de identidade, decisões começam a se fragmentar. Áreas passam a operar com lógicas próprias. Prioridades se multiplicam sem convergir. A sensação de desgaste aumenta.
A cultura funciona como arquitetura invisível. Ela orienta comportamentos, expectativas e a maneira como a empresa lida com tensões internas. Quando a empresa começa a crescer, essa arquitetura precisa ser fortalecida, não para virar um manual, mas para sustentar a transição entre fases.
Identidade e cultura não eliminam a complexidade — mas tornam ela legível. Ajudam a selecionar o que deve ser preservado e o que precisa mudar.
A escassez que importa: gestão, tempo e capacidade de coordenação
Empresas em crescimento costumam operar em ambiente de escassez: poucas lideranças experientes, pouca capacidade de coordenação, excesso de demandas simultâneas e uma pressão crescente para responder rápido a tudo. O problema não é falta de vontade. É falta de espaço cognitivo.
Nessa fase, decisões precisam ser tomadas com foco no essencial: quais capacidades realmente sustentam o próximo passo? Que rituais de gestão são suficientes — e não excessivos? O que exige formalização? O que ainda pode permanecer flexível?
O erro recorrente é acreditar que governança forte exige complexidade. Na prática, o que sustenta a evolução é uma governança mínima, coerente e clara, capaz de reduzir ruído sem engessar.
Esse é o ponto em que o desenvolvimento organizacional encontra sua expressão mais concreta: reconhecer limites, priorizar o que faz diferença e proteger a capacidade de adaptação da empresa. Trata-se de buscar o próximo passo viável para a empresa.
Estrutura organizacional: o desenho que dá forma ao crescimento
Conceber o design adequado da estrutura organizacional é, essencialmente, desenhar caminhos para que as decisões encontrem quem precisa executá-las. Mais do que criar níveis, cargos ou organogramas grandiosos, o foco deve ser em coordenar relações, fluxos e expectativas.
Quando bem desenhada, a estrutura organizacional diminui atritos, clareia papéis e sustenta a execução. Quando mal desenhada, amplifica complexidade, cria silos, gera disputas implícitas e torna a liderança refém de ruídos diários.
O desafio está em encontrar o equilíbrio entre ordem e movimento. Estrutura demais sufoca. Estrutura de menos exaure. Estrutura sem coerência desorganiza.
A pergunta-chave não é “qual é a estrutura ideal?”, mas “qual é a estrutura que faz sentido para a nossa fase?”. Novamente, qual o próximo passo viável no design estrutural.
O erro de buscar referência nas gigantes
É comum, nessa fase, tentar comparar práticas internas com empresas globais. Mas essas organizações vivem em outro ecossistema: capital abundante, especialistas em todas as áreas, camadas de governança sólidas, infraestrutura tecnológica sofisticada, dados em escala massiva.
Usar essas referências gera ansiedade e decisões desalinhadas com a realidade. Empresas em crescimento não precisam se parecer com gigantes. Precisam se parecer consigo mesmas — mas em uma versão mais clara, mais coordenada e mais consciente.
A maturidade não está em replicar modelos; está em compreender o próprio ritmo e construir capacidade para sustentá-lo.
Desenvolvimento organizacional na prática: um caminho possível
O amadurecimento real se dá quando a empresa é capaz de olhar para si com honestidade e responder perguntas essenciais:
O que realmente sustenta valor neste momento?
Onde a complexidade aumentou além do que conseguimos digerir?
Quais comportamentos reforçam nossa identidade — e quais a distorcem?
Nossa estrutura organizacional está ajudando ou bloqueando o fluxo do trabalho?
O que deve mudar primeiro, e o que precisa permanecer estável para não romper o sistema?
Essas perguntas não servem para gerar diagnósticos perfeitos. Servem para estimular consciência. E consciência é o ponto de partida de qualquer processo de desenvolvimento organizacional consistente.
O amadurecimento organizacional não é uma corrida. É um movimento contínuo em direção a mais clareza, mais presença e mais coerência. Crescer não significa replicar modelos, sofisticar processos ou adotar práticas da moda. Significa ganhar capacidade de lidar com a complexidade que o próprio crescimento produz.
Desenvolver-se é, antes de tudo, aceitar o estágio atual e escolher o próximo passo com lucidez — não com ansiedade. É ajustar o ritmo, ler os sinais, refinar hábitos, fortalecer vínculos e construir uma organização que sustenta o futuro sem trair sua essência.
.png)



Comentários