A asfixia da cultura e o propósito normativo
- Marcos Thiele
- 13 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Nos últimos anos, muitas empresas passaram a se apresentar a partir de um propósito. Em alguns casos, ele se tornou o eixo em torno do qual se define quem somos, por que existimos e o que buscamos realizar. Há algo legítimo nisso: toda organização precisa de uma narrativa que sustente o sentido de permanecer e atravessar o tempo.
Mas o propósito não existe por si. Ele é sustentado por uma força mais ampla, profunda e orgânica: a cultura corporativa. Cultura é o modo como o coletivo se reconhece. É a textura fina que se forma entre pessoas que compartilham tempo, esforço, expectativa e história. Ela se manifesta menos nos discursos formais e mais nas interações informais, nos silêncios entre as reuniões e na forma como as pessoas genuinamente se relacionam.
Quando a cultura é saudável, vitalizada, o propósito ganha profundidade e espaço para circular, se tornando um horizonte comum a ser alcançado por caminhos diversos. Mas quando a cultura se estreita e enrijece, quando perde espaço para acolher variação, ritmo e contradição, o propósito começa a sustentar mais peso do que pode. Ele passa, aos poucos, a funcionar como norma.
Isto não ocorre por um plano consciente, mas porque faltou atmosfera para sustentar a complexidade humana que o trabalho exige.
A cultura asfixiada
Cultura vitalizada pode ser entendida como um grande rio. As margens precisam ser bem definidas, concretas e compreendidas. Mas dentro das margens há diversas correntes, fluxos, velocidades, temperaturas e movimentos. É esta diversidade de sub-culturas que traz vitalidade. Uma cultura homogênea é equivalente a uma empresa seca de vida, que pouco respira.
Toda cultura é, em grande parte, uma memória coletiva vivida – a soma de como conflitos foram resolvidos, como os erros foram tratados e como as vitórias foram celebradas. Essa memória é o solo que dá profundidade e continuidade à organização. Quando esse solo se enfraquece, por falta de cuidado e convivência, o propósito e os valores são escalados para assumir a função da cultura, como muletas. Não por uma decisão estratégica, mas por ausência de um alicerce.
Quando a cultura perde a capacidade de acolhimento, as relações se tornam excessivamente cautelosas. A espontaneidade cede lugar ao cálculo, e o engajamento genuíno – que nasce do vínculo e da experiência de poder "ser" sem precisar performar – se esvai.
Aos poucos, valores organizacionais, fundamentais como campos de interpretação para dilemas éticos, deixam de operar como bússola na ambiguidade e se tornam molduras fixas de identidade. O que era critério de discernimento se transforma em sinal de adequação.
A pessoa passa a monitorar não apenas o que faz, mas quem é quando faz, o que acaba por produzir uma natureza forçada de alinhamento que podemos declarar como alinhamento performático, que pode parecer harmonia à distância, mas mascara um distanciamento interno.
Um caminho possível
É importante compreender a função primordial da cultura: geração de experiências com significado compartilhado. Isso significa criar ambientes, espaços, meios e processos onde o humano possa aparecer em sua forma incompleta e mutável, onde o conhecimento possa ser sintetizado em aprendizado individual e coletivo, de forma que a organização possa encontrar os caminhos mais eficientes para operar.
Uma cultura viva não exige homogeneidade; ela sustenta o movimento, a nuance e a transformação. Para que o propósito volte a ser uma fonte de sentido, e os valores vetores éticos, é fundamental devolver à cultura o espaço para respirar.
.png)



Comentários