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A Arte Política na Liderança das Organizações

  • Foto do escritor: Marcos Thiele
    Marcos Thiele
  • 13 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura


As organizações, longe de serem máquinas bem ajustadas, podem ser compreendidas como sistemas políticos nos quais diferentes pessoas disputam recursos e espaço em redes de influência e poder. Talvez uma boa analogia seja um parlamento. O poder não se limita às alçadas, autoridades e cargos formais, mas permeia cada reunião, cada negociação e cada decisão estratégica. Raramente exercido de forma pura e direta, ele se constrói por meio de alianças, concessões, influência e, claro, da arte de navegar conflitos. A política, nesse sentido, não é um desvio do funcionamento organizacional – ela "é" o funcionamento organizacional.  


Processo Político


Um grande risco para muitos líderes – especialmente aqueles com alta capacidade intelectual e baixa maturidade relacional – é menosprezar a arte da política.  O CEO não é um rei absoluto, mas um líder que precisa articular interesses, negociar passos e, acima de tudo, construir um campo de forças que sustente a execução das decisões estratégicas.  Esperar que o grupo de liderança se alinhe automaticamente a um propósito comum, ou a uma construção estratégica racionalmente brilhante, é uma ilusão perigosa. Na realidade, cada executivo, gestor ou stakeholder tem seus próprios e legítimos interesses, objetivos e visões. Esta diversidade dá vida a uma dinâmica política que  tem como base o reequilíbrio contínuo nas relações de força; que são reordenadas, refeitas e ressignificadas a cada encontro, embate, e negociação. 


O processo decisório, portanto, não deve ser visto apenas como um exercício técnico de análise e escolha racional, mas como um campo de disputa onde diferentes atores tentam moldar a narrativa da realidade organizacional a partir de seus interesses e perspectivas. Neste sentido a construção de convergência coletiva jamais se dará pela imposição de uma única perspectiva. Um alinhamento político eficaz dentro das organizações exige a compreensão de que o consenso absoluto é, na maioria das vezes, inatingível, e sua busca incessante pode levar à estagnação decisória. Melhor será um processo maduro de consenso relativo, reconhecendo as diferentes perspectivas ao longo do caminho, porém com um encaminhamento final claro.


Competência política


"Quase todos os homens podem suportar a adversidade, mas se você quiser testar o caráter de um homem, dê-lhe poder." 

— Abraham Lincoln  


Caráter

Competência e sabedoria política trazem como condição essencial caráter. O líder que atua apenas com base em conveniências pode até prosperar temporariamente, mas cedo ou tarde verá sua credibilidade corroída. A política organizacional não deve ser sinônimo de manipulação e agendas ocultas. Pelo contrário, quando conduzida com ética e integridade, ela se torna um mecanismo legítimo de alinhamento e tomada de decisão.  Um líder sólido é aquele que, mesmo em meio às disputas e pressões, mantém a coerência entre discurso e ação, garantindo que sua influência seja baseada em respeito e confiança. Sem isso, qualquer construção política será frágil e vulnerável. 




Capacidade de leitura do contexto

A competência política demanda uma aguda capacidade de leitura do ambiente para reconhecimento das forças e alianças em operação:  algumas serão explícitas e combativas, outras sutis e silenciosas. Ao reconhecer e mapear estas dinâmicas será possível intuir os espaços para a essencial construção de massa política crítica para decisões estratégicas. Decisões importantes precisam de sustentação, e o  líder que não constrói um campo de apoio antes de propor mudanças corre o risco de ver suas ideias sabotadas antes mesmo de nascerem. 


Tensões e conflitos

O ambiente organizacional, sendo uma rede de interações e relações, é naturalmente permeado por tensões. Algumas destas tensões podem ser necessárias e criativas, outras podem frear o desenvolvimento da organização. Estas tensões são percebidas usualmente na interação entre funções (por exemplo vendas e produção), e muitas delas podem ter caráter permanente. Já os conflitos só ocorrem entre pessoas, e, quando ignorados, tendem a se intensificar nos bastidores, comprometendo a governabilidade. A competência política requer a compreensão do risco, impacto e possibilidades de transição do conflito para níveis mais severos, assim como a ação mitigadora necessária.


Próximo passo viável

Na perspectiva do processo de construção de convergência, a competência política exige compreensão cristalina de que é crítico focar no próximo passo viável, e não na solução perfeita. Conforme explica A. Kahane no livro "Trabalhando como Inimigo", em situações de alta complexidade e tensão, o progresso acontece quando os envolvidos estão dispostos a dar pequenos passos, mesmo sem garantia de sucesso absoluto. Esses passos geram novas perspectivas e abrem espaço para realinhamentos e renegociações. Esse processo incremental permite que os conflitos sejam administrados, em vez de servirem como barreiras intransponíveis, e dá ao grupo a chance de construir soluções a partir da realidade concreta, e não de um ideal abstrato.

Em vez de esperar um consenso absoluto ou um plano infalível, um líder eficaz deve concentrar-se no próximo passo viável – aquele que pode ser implementado com os recursos disponíveis, que responde minimamente às preocupações dos principais atores envolvidos e que cria um movimento positivo na organização. Cada avanço, por menor que seja, altera o campo de forças e cria novas oportunidades de alinhamento.


 

Conclusão

 

A política nas organizações não deve ser vista como um obstáculo, mas como um meio intrínseco, legítimo e necessário. É um sistema complexo de articulação e reconfiguração contínua de forças, que precisa ser compreendido e induzido, para não se tornar um risco para a organização, como um animal com vida própria sujeito apenas aos próprios impulsos.


Para os indivíduos que assumem protagonismo na liderança é importante reconhecer e desenvolver sua competência política de modo que esta possa ser aplicada de forma pragmática  - fazer o que funciona naquele contexto. Liderar uma organização, ao final, significa navegar redes de poder, equilibrar interesses divergentes, e conquistar capital relacional para garantir seu desenvolvimento estratégico, sem perder o norte ético.  



Marcos Thiele


 
 
 

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